HISTÓRIA DE ESQUINA

JeD

FOTO: Elieser Borba

Certa vez caminhava de Botafogo para Copacabana num destes dias que faz tanto calor, mas tanto calor que não sabemos se ficamos em casa para escapar do sol os se saímos à caça do pouco vento que corre. Estava quase iniciando a travessia do Túnel Coelho Cintra -ou “Túnel do Leme” – quando ouvi não muito longe um “psiu” vindo da minha esquerda. Percebi um casal sentado na escadaria lateral do túnel, e era a mulher que agora acenava para mim.

        Tinha a absoluta certeza de que nunca tinha visto ambos e que tampouco os conhecia:

-Boa tarde. Disse.

-Oi!! Respondeu a mulher que prosseguiu.

-Por acaso o Senhor vai comer esse sorvete todo?

        O sorvete que tinha em minha direita tinha sido comprado minutos antes no Bobs, no Shopping Rio Sul, algo que quase nunca me dou a fazer.

-Você quer o sorvete? Perguntei.

-Eu aceito sim Senhor!!

        Entreguei o alimento elogiando suas unhas que estavam muito bem pintadas e cuidadas com bastante esmero. Ela me disse se cuidar muito e que sempre carregava consigo sua bolsinha de esmaltes encontrados nas sacolas de lixo.

-Vocês são um casal? Perguntei ao Homem.

-Somos sim Senhor. Estamos juntos faz dezoito anos.

        O cabelo desgrenhado e o aspecto sujo do rapaz contrastava com a leveza e alegria do sorriso que quem vive ao relento, ainda assim muito embora ter a rua como casa pareça ultrajante, o fato de ter o céu como teto é capaz de promover um fascínio que supera qualquer adversidade.

        O rapaz se chamava “J” e a moça “D”, um casal jovem e bastante desinibido. Disseram ter uma filha de três anos que vive com a mãe de “J”, e que só vivem na Rua para “garimpar” o lixo da Zona Sul durante a semana, indo para casa quase todos os sábados e domingos:

-Poxa, eu nem sei quanto tempo faz que eu não tomo um sorvete…..deixa eu contar uma coisa para o Senhor….sabia que foi ele que fez o meu parto? Disse a mulher com o semblante de orgulho de um pai miserável que aponta para o filho aprovado num desleal vestibular de medicina.

        Ela disse terem chegado num Hospital e aguardado tanto que no fim das contas foi o próprio “J” que acabou por assumir o papel de parteiro da própria filha!!

-Vocês acham muito difícil morar na Rua?

-Olha, o mais complicado é ficar com fome às vezes sabe? Mas a gente fica com mais fome em casa do que aqui…pelo menos a menina não passa necessidade pois fica com a minha mãe!! Respondeu “J”.

        Essa foi só nossa primeira conversa e sempre encontro com eles nas ruas de Botafogo e Copacabana e tive o prazer de almoçar com os dois ali mesmo na escadaria onde os conheci sentados num velho colchonete amarelo, a cor da fome, conforme dizia a poetiza Carolina Maria de Jesus, que assim como eles carregou marcas cabais de quem luta pela sobrevivência na megalópole.

 

 

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