HISTÓRIA DE ESQUINA

Historiadeesquina

Semana passada fui assistir à partida do Botafogo contra o Juazeirense pela Copa do Brasil num bar que frequento em Copacabana. O responsável pelo local deu uma saída rápida e pediu que eu desse uma olhada. Estava sentado ao lado de fora sozinho e a partida ainda não tinha sido iniciada. Abaixei a cabeça para olhar a hora e vi um vulto passar para dentro do estabelecimento:

– Ei bicho!! Eu disse em bom tom.

Um rapaz aparentando ter 30 anos veio até a calçada!!

– Boa noite!! Por acaso o Senhor teria sobra do almoço por aí?

Muito embora seu semblante fosse de muita fome suas vestimentas de grife denunciavam algo contrastante!!

– Olha rapaz, eu não sou o dono do estabelecimento – Lhe disse.

– Ele teve que dar uma saída mas volta já!! É um cara bom e acredito que deva te dar algo para comer caso você lhe explique a sua situação!! Mas numa boa….você está muito bem vestido para estar com a fome que é latente no sua cara!! Quer se sentar aqui comigo?

Ele perguntou-me se eu aguardava alguém e se não me incomodaria. Obviamente disse que não e que eu estava lhe convidando a se sentar à mesa comigo!! Ele me pediu licença, se sentou e em resposta à minha indagação sobre suas roupas deu um longo sorriso!!

– Qual seu nome? Ele me perguntou.

– Elieser, respondi. Mas tenho outros!! Sou escritor e meu uso este apenas para escrever. Meu nome de verdade é Adilson!!

O Jovem se apresentou como “W” e me perguntou se eu era mesmo escritor. Sorriu novamente e disse que a sua vida daria um bom livro!! Perguntei-lhe o porque de não escrever então!!

– Escrever como se eu nem tenho muita coisa comigo? O restante da minha roupa está dentro de um saco preto que um gari me deu!! Coloquei dentro de um cano grande de uma obra ali na orla!! Vou falar uma coisa para o Senhor, eu sempre pude fazer o mesmo que cê tá fazendo aí agora!! Sentar e tirar minha onda. Se eu ligar para minha mãe agora ela vem aqui amanhã me buscar ou manda um motorista!! Eu tô aqui na rua fazem 6 meses. Saí de casa e nem falei para ela pra onde estava indo. Ela tinha ido trabalhar no dia!!

Perguntei para ele se não lhe incomodava o fato dela estar preocupada:

– Olha, eu saí de casa por causa de droga!! Da cocaína!! Parei de usar faz pouco mais de um ano, mas ela não acredita em nada do que eu diga ou faça!! E isso acaba comigo, porque não sou mais um viciado…eu tô limpo!!

Seu semblante não mentia. Ele realmente parecia muito bem, tirando o ar faminto e a cor amarela que a poeta Carolina Maria de Jesus dizia a cor da própria e daqueles que por ela são acometidos. O rapaz continuou:

– Nunca me faltou nada em casa, nem em lugar nenhum para onde eu ia e viajava! Eu sou de Belo Horizonte, e estudei nos melhores colégios de lá. O meu pai ele foi cozinheiro do Bill Clinton sabia? Ele hoje tem um restaurante em Nova York e cozinha pra muita gente famosa. Ele entrou no EUA pelo México dentro de um caminhão tanque. Descascou batata pra caramba em restaurante mas conseguiu se colocar na vida. Ele se separou da minha mãe mas nunca deixou de enviar dinheiro, e ela nem precisa, pois e dona de um monte de lojas em Shoppings de Belo Horizonte.

Seu semblante estava triste ao falar da família, principalmente do pai. Os olhos ficaram marejados:

– Você acredita em alguma coisa? Perguntei enquanto pedia para fazer uma porção de bolinhos de bacalhau para ele comer.

– Olha, eu acredito em Deus, mas não gosto de seguir religião. Eu sei que ele existe e que me abençoa. Eu tô aqui agora e o Senhor que nem me conhece me convidou para sentar e vai me pagar uma comida!!! Mas frequentar Igreja isso eu não faço não!!

Fiquei muito surpreso e perguntei o por que:

– Vou te falar uma coisa. Eu andei em tudo quanto foi favela de Minas e de outros lugares atrás de droga, e sabe o que eu mais via na favela em maior número que viciado?

– Não. Eu disse.

– Igreja Evangélica, foi sua resposta!!

– Se o Senhor mora por aqui sabe que numa área como essa, aqui em Copacabana, você quase não vai ver igreja, sabe porque? O melhor negócio para o que algumas igrejas se tornaram é o pobre, e aqui não tem pobre!!

Nesse momento lembrei da discussão do grupo Amigos do Leblon no Facebook, onde ao ser noticiado o fim de um dos teatros da cercania do metro quadrado mais caro do Rio de Janeiro gerou um imenso rebuliço digno de se bater até panela!!

– Olha eu te disse que minha vida dá um livro.

Disse isso e sorriu de forma nostálgica!!

– Eu nunca curti muito a onda da maconha, mas se eu te disser que já fumei maconha com uma banda de rock famosa (o vocalista da banda já não se encontra mais entre nós) que eu era fã tu acredita?

Na hora me entusiasmei!!

– Então, certa vez eu estava sentado na Praça da Estação, não sei se o Senhor sabe onde é!! Tava enrolando um baseado meio destacado da galera, porque lá à noite e na madruga é cheio de Playbloy!! É como a Lapa de vocês aqui no Rio. Estava eu lá e me para uma BMW na caçada na minha frente. Desceu um cara com os cabelos desarrumado e na hora eu já estava falando um dos caras sem saber quem era porque ele estava sem o Sassá na cabeça!! Eu disse pra ele que ele podia fumar comigo, e que depois eu levava ele na quebrada para ele comprar!! Ele então se virou pro carro e chamou “chega aí menor, o cara chamou nós pra fumar aqui!!” Quando eu olhei, o tal menor era o vocalista da banda, e depois saiu o baterista e o guitarrista!! Eu fiquei doido!! Eles abriram a mala e pegaram uns Skates. O vocalista perguntou se a gente podia ir para a pista andar de Skate e fumar por lá mesmo, e fomos!!

Eu estava mais e mais empolgado com a história, e ele continuou:

– Nós fumamos aquele e eles me perguntaram onde dava pra arrumar mais. Eu levei eles lá no Arado, uma favela plana bem perto de onde a gente estava. Cheguei perto da entrada e fui falar com os traficantes. Disse que estava com os caras da banda tal lá fora e se estava tranquilo pra eles entrarem. Quando os cara viram quem era ficaram maluco….pediram autógrafo e tudo e os malucos da banda tiraram foto, zoaram às pampas!! Compraram R$ 3.000,00 de droga, pedra, pó e maconha!! Voltamos pro mesmo lugar mas antes o vocalista foi num posto e comprou três garrafas de Black Label. Nós fumamos até de manhã. Eu só fumei mais um baseado, mas os caras usaram tudo!! Parece que a onda deles passava rápido sabe?

Curioso perguntei onde o motorista da banda tinha ido para esperar por eles, ele deu uma gargalhada:

– Motorista? Que motorista?! O piloto era o vocalista muito louco de maconha e pó!! Me deram R$ 300,00 pra pegar um táxi e eu nem precisava!! Morava pertinho!! Os caras depois disso sempre me ligavam. Toda vez que vinham fazer show na cidade me davam ingresso pra ir de graça e nunca me pediram para voltar com eles lá pra comprar droga, mas toda vez que eu ia na boca de fumo pra comprar uns 2 papéis de pó às vezes os caras me davam 15!! Me abraçavam, diziam que eu era o cara que conhecia os roqueiros!! A minha mãe sempre odiou que eu usasse droga, mas naquele dia eu fiquei tão empolgado que entrei em casa de manhã com a ponta do baseado acesa na boca dizendo que eu estava com os caras!!

Perguntei-lhe o que tinha achado da experiência e qual foi sua reação ao saber da morte do vocalista tempos depois:

– Olha cara, eu vou te falar, se tem três coisa que eu percebi naquele dia foi a humildade dele, o como ele era bom no que fazia mas que infelizmente ele não iria durar muito. Os outros fumavam muito, mas só ele bebia, usava pedra e quando fumava fazia mesclado (maconha com cocaína). Ele era um cara muito louco, do mesmo tipo do Cazuza e daquele outro que criava uma vaca dentro de casa no Recreio (referência a Tim Maia) e gente assim não dura muito não!! É a mesma coisa de um ator da Globo que pegou uma van comigo anos atrás quando eu visitava uma tia aqui no Rio. Fui pegar uma maconha e ele desceu no ponto junto comigo. Eu achei estranho o cara de óculos escuros e boné à noite, mas cada um na sua!! Só que quando eu saí da quebrada ele se perdeu e me pediu ajuda. Disse que eu não precisava me preocupar porque ele era um cara famoso e que não ia me fazer mal. Tirou o boné e o óculos e logo reconheci ele do Zorra Total. Me perguntou se eu queria catar umas mulheres na pista e ir até a cobertura dele no Recreio. Como minha tia morava ali mesmo eu fui, mas nós paramos num bar para beber e cheirar e ele ficou puto porque a maioria das mulheres faziam “corre” e daí foi embora!!!

Perguntei à ele se estava feliz e satisfeito naquela situação:

– Poxa, o que eu mais queria era falar com o meu pai de novo!! Ele sempre me tratou bem, chegou a pagar caro numa clínica por três meses, mas eu saí de lá direto pra a boca de fumo. Tudo porque fui sozinho pra casa!! Esperei minha mãe me buscar por horas e ela não apareceu. Ele tinha dito que se me ajudasse e eu voltasse para aquela vida ele nunca mais falaria comigo, e fez isso!! Parou de me mandar dinheiro, parou de falar comigo!! O meu pai cara! Mas você sabe que eu acho que no fundo eu não sou o culpado por tudo isso, por mais que eu entenda que para o viciado tudo que ele faz é a verdade e a coisa correta a fazer. O problema foi que eu sempre tive tudo. Os meus pais nunca me disseram não!! Você tinha me perguntado se eu acreditava em alguma coisa né? Então, eu acredito que se eu tivesse levado uma surra na vida nada disso tinha acontecido!! Você já tomou uma surra? Ele me perguntou.

– Várias, respondi.

– Então, eu nunca nem soube o que é apanhar pra ser corrigido. Mas eu sei que as coisas vão mudar, pois quando a primeira coisa que a gente deve mudar somos nós mesmos pra que a nossa vida mude!!!

Me pediu licença, agradeceu pela comida e me deu um forte abraço. Fiquei sentado comigo e com meus pensamentos!!

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