ENFIM “SUS” – Diários de um Paciente num Hospital Público

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PREFÁCIO:

Em mais uma destas passadas rápidas pela rede social (Facebook) estive lendo uma postagem de um amigo onde o mesmo relatava um fato que infelizmente ainda é bastante comum ser observado pelo Brasil: “Hoje fiz um churrasco em Vilar dos Teles, São joão de Meriti. Ao final, quando eu e meu filho nos dirigíamos para um ponto de ônibus, esperamos o sinal fechar e ele fechou. Então atravessamos a rua e para minha “surpresa”, um carro iria avançar o sinal. Freou quase que nas minhas pernas. Então, apontei na direção do semáforo e o motorista me disse: -Você quer confusão? -Você quer confusão?” Me preocupa a imprudência e a falta de respeito das pessoas. E o que é engraçado, é que o errado é o certo”.

Na última vez em que estive com Paulo Safadi, o amigo que foi o responsável por este relato, estava nas primeiras semanas de recuperação da cirurgia que realizei para reconstituir os ossos de minha tíbia e fíbula. Os mesmos sofreram uma fratura em decorrência de um grave acidente de trânsito mediante algo que o mesmo menciona acima, a imprudência. Se tivesse a possibilidade de ter discutido com ele acerca do ocorrido, com certeza teríamos tido um debate bacana, sendo o mesmo dotado de uma capacidade de percepção e senso crítico fora do comum, no entanto, minha colocação seria a de que é algo muito triste observar que muitos dos que fazem os ditos “errados” se fazerem “certos” somos nós mesmos que muitas das vezes por presa, ou até receio de uma possível retaliação nos omitimos e nos recolhemos em nossa bolha de contrastes urbanos e de vida para seguirmos em frente como se nada tivesse acontecido, até para evitar problemas maiores. Na obra “Fé em Deus e pé na Tábua” o autor Roberto da Matta discute de maneira bastante concisa e clara o fato do veículo ser concebido como um instrumento de poder, de dominação ou mesmo divisão social, fatores estes que fazem do trânsito nas grandes megalópoles brasileiras terem sido palco de uma série de desrespeitos, insultos e agressões terminando muitas vezes em mortes banais.

Eu mesmo ouvi de alguns “Deixa isso para lá!!”, “O cara que te atropelou é um major do exército. Cuidado hein!!” ou ainda, “Para de andar de moto cara, isso é perigoso!!” Sinceramente, no momento em que dou vida a este trabalho, ainda sem poder caminhar novamente por recomendação médica e impossibilidade física, me sinto parado no tempo no exato momento em que vi aquele Renault Sandero vermelho vindo em minha direção e acertando em cheio na lateral esquerda de minha motocicleta, em um cruzamento onde por lei ele deveria ter parado a aguardado minha passagem sendo eu o motorista que trafegava na via preferencial. Desde esta ocasião não tenho tido outra ideia que não fosse pensar em minha melhora, no entanto, não me vejo deixando de pensar em fazer algo, uma tentativa de ao menos de alguma forma me imbuir em um movimento social que busque não só a paz, mas a conscientização no trânsito e tecer estas linhas me trouxe uma forma de não só estar compartilhando o que me inquieta, mas também de vir a expor uma outra realidade que é inerente àquele que sofre um acidente de trânsito, principalmente os que são pobres e reféns de um descaso cada vez maior do Governo, e que quando não vem a óbito ficam à mercê do cotidiano dos hospitais públicos.

Meu acidente ocorreu no Rio de Janeiro, dia 25 de Janeiro de 2014, e permaneci internado apenas um mês e quatro dias no Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier. Apesar de não ter sido um longo período, este tempo de internado foi suficiente para poder ter uma vivência que sem dúvida estará dentre as que nunca mais irei esquecer em toda a minha vida onde estive perto de morte desde o momento em que caí da motocicleta até as várias passagens da mesma pelo quinto andar ou ainda na enfermaria onde eu estava para ceifar mais uma vida que iria embora sem nem ter tido a dignidade de viver bem.

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