Cidade Partida?

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Fazem pelo menos dez anos que li o conhecido livro do jornalista e escritor Zuenir Ventura intitulado “Cidade Partida”. Em minha opinião, o aclamado trabalho literário do autor em questão é indiscutivelmente uma das mais claras expressões de que, de fato existe uma divisão que não se dá só no âmbito sócio-espacial na cidade do Rio de Janeiro. Muito embora o livro divague acerca das diversas formas que as imaginárias linhas culturais e geográficas segregacionistas possam ser transpostas, ainda estamos muito longe de pensar numa maior integração entre as camadas menos e mais abastadas nesta cidade.

Sou nascido no Rio de Janeiro, na antiga Maternidade Campinho, hoje um dos vazios urbanos da cidade, localizada numa conurbação entre Oswaldo Cruz, Madureira, Vila Valqueire e Praça Seca. Em meus primeiros quatro anos de idade morei em Marechal Hermes e depois me mudei com minha família para Madureira, por coincidência muito próximo à maternidade na qual vim ao mundo. Já fazem quase seis anos que sou morador do Bairro do Leme, no extremo oposto cultural, comercial e econômico da cidade e ontem fui testemunha ocular de uma cena que me causou um estranho conflito interno.

Eram mais ou menos 18:30hs, e estacionei minha motocicleta na altura do imponente Hotel Windsor, localizado na esquina da Avenida Princesa Isabel com a Avenida Atlântica. Deixei o veículo trancado e me dirigi ao fim da Praia do Leme, um pouco mais à frente e onde tencionava encontrar alguns conhecidos que ali estavam reunidos para nos socializarmos e principalmente espantar o calor que fazia toda a Orla em “U” característica da geografia de Copacabana fervilhar desde às 7hs da manhã. Parei junto à dois homens em trajes de banho que estavam conversando no semáforo em frente ao mesmo Hotel no intuito de atravessar a Avenida e percebi repentinamente que o sinal estava verde para a travessia de pedestres na faixa. Quando fiz menção de por meus pés na via vi que um automóvel se encaminhava para avançar o sinal e imediatamente retornei à calçada mas foi inevitável ouvir de um dos homens ao meu lado a seguinte frase:

– O sinal está vermelho para você seu babaca!!! Vai lá sem educação, volta pro subúrbio seu merda!!

Atravessei a via logo atrás dos homens que não respeitaram o sinal vermelho para os pedestres da via seguinte e não resisti ao impulso de dizer para eles:

– Vocês falaram do homem que avançou o sinal mas travessaram sem ter o outro sinal verde para vocês não é? E aí, qual a diferença de vocês para ele?

Os dois se surpreenderam com o que eu disse e me olharam assustados. Apressaram o passo e se encaminharam para a areia da praia do Leme olhando para trás de forma temerosa em direção a mim. Muito possivelmente me taxaram como um desses “suburbanos causadores de arruaças na Zona Sul” como tem sido modinha entre algumas figurinhas de mente mentecapta tais como Hildegard Angel ou talvez eles só tenham me ignorado, afinal de contas, o calor era muito e o mar os aguardava, mas ainda assim muitas vezes um olhar diz mais do que palavras e fico com a primeira opção. A situação  me deixou perplexo e me trouxe à tona um outro fato que presenciei faz pelo menos três anos nas cercanias do Leme, mais precisamente em Copacabana. Duas mulheres discutiam na altura da Rua Barão de Ipanema por causa de uma vaga para estacionar seus respectivos automóveis. A discussão seguia com todo o repertório de insultos e palavras de baixo calão, algo característico a estes espetáculos de falta de educação pública, quando uma das mulheres disse para a outra:

– Olha aqui querida…pode ficar com a vaga, mas se você voltar para a porcaria do subúrbio onde você nasceu com certeza tem muitas vagas por lá!!!

Sinceramente, é muito difícil para mim eleger qual dos dois episódios (o mais antigo ou o mais recente) é o mais esdruxulo dentro desta realidade. Na verdade, nem sei se a palavra “esdruxulo” define bem o que se passa em ambas situações, sendo que a mesma denota algo que é estranho e avesso a alguma coisa, e infelizmente, observar o tipo de comportamento separatista, classista e dentro de uma cidade onde todos são auferidos pelos mesmos problemas que são oriundos de uma mesma administração corrupta e incompetente é algo mais que comum. Contudo, cabe aqui expor minha consternação em relação à posicionamentos deste tipo e que por vezes são oriundos de pessoas que residem no subúrbio, na baixada e até no interior. Enquanto não compreendermos que todos somos parte de uma unidade conjunta, dotados de anseios em comum e sofredores da mesma patologia social, de fato será cada vez mais longínqua a busca por uma identidade cultural carioca ou mesmo brasileira, sendo que o separatismo se estende ao “carioca que não gosta do paulista” e do “paulista que não curte o nordestino” e vice-versa!!! No fim das contas, como diz a camisa dos roqueiros de farmácia por aí e que é estampada com uma série de caveiras vários tipos e estilos “Não importa sua tribo, somos todos iguais!!”

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