O MENINO PRETO

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Esta semana vi um moleque no ônibus. Moleque preto, remela no rosto, canela cinza e olhar desconfiado. Não tinha mais que quatro anos, mas ainda assim olhava para todos com um olhar de desconfiança que poucas crianças daquela idade atribuem à um adulto, pois a maioria dos pequenos confiam e sorriem para todos os que lhes abrem os braços…todos são bons!!

Olhar aquele menino no colo da avó recordou a mim mesmo anos atrás, não tão desconfiado, porém um menino que cresceu e sendo hoje um homem feito se preocupa com o amanhã. Apesar de achar estranho preocupar-me com algo que não é possível ser mensurado, ao olhar para o semblante daquele menino que estava a chorar, talvez por fome ou por estar enjoado daquela viagem de Madureira ao Centro – que está a cada dia mais longa – me preocupei com o seu futuro, se ele terá futuro, se sua cidade terá futuro ou mesmo se ele ficará na sua cidade.

Muito dificilmente o moleque preto não é carioca, e este é um momento histórico em que o Rio de Janeiro parece ter o futuro mais incerto de que já imaginamos em nossa vã fantasia de pensar “o que será?” Moleque preto aqui não tem futuro certo, ou a polícia por vezes mata ou o Estado maltrata. Se ele se cala é pária, se fala tem quem queira que feche a matraca e o homem preto outrora menino ao olhar para o futuro do filho que dorme leva as mãos à cabeça e chora, deitado na cama no silêncio da noite de sexta, pois para ele sábado também é “dia de preto!!”

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