“O Canto dos Malditos”.

Image

Dia da luta anti-manicomial em 18 de Maio e já faz alguns anos, mais precisamente no ano 2000, que em uma tarde chuvosa na cidade de Recife, tive a oportunidade e de ir ao cinema numa sessão onde apenas eu e mais duas pessoas faziam parte. A obra cinematográfica em questão tratava-se do filme “Bicho de Sete Cabeças”, estrelado pelo ator brasileiro Rodrigo Santoro e a mesma me impactou bastante não por sua atuação  – ele ainda não era tão badalado no cinema naquela época – mas pelo fato do mesmo tratar de um tema bastante deixado de lado ou abordado de forma sarcástica pela sociedade brasileira, “a loucura”.

Me lembro ter ficado fascinado com o filme em questão não só pela temática abordada mas pelo fato de ter observado durante os créditos que a obra havia sido baseada num livro intitulado “O Canto dos Malditos”. Anotei o título deste livro num pedaço de papel que havia em minha carteira, e o mesmo me acompanhou durante alguns anos em buscas incessantes em diversos lugares. Enfim, de volta ao Rio de Janeiro, no ano de 2007 adentrei numa pequena livraria no bairro onde residia, em Madureira e pasmem, ao dar uma bisbilhotada na estante de culinária encontro o tal livro, uma auto-biografia de Austregésilo Carrano Bueno. Procurei me aprofundar mais acerca da obra do autor, que na verdade não era dotado de uma “obra”, mas que posso dizer foi um precursor ou senão o único que deu início a luta anti-manicomial no Brasil, sendo o primeiro cidadão a mover uma ação indenizatória por erros de diagnósticos e tratamentos torturantes no Brasil.

O livro em si expõe de forma crítica as passagens de Austregésilo por diversas clínicas psiquiátricas do país após seu pai encontrar em sua jaqueta um cigarro de maconha e o internar de forma compulsória o que fez o rapaz se institucionalizar pelos manicômios por onde passou. Seus relatos acerca de questões tais como: insalubridade, maus tratos e mesmo o uso dos aparelhos de eletrochoque pela repressão ditatorial estão entre o aparato de informações que compõe o livro que foi o único que até hoje me fez rir e chorar ao mesmo tempo durante uma leitura. Sem dúvidas este livro me trouxe uma nova forma de olhar para pessoas que pelas ruas, nas repartições públicas, nas reuniões de família e etc são tidas como loucos, malucos, insanos, ou como eu mesmo era tido ao servir a Marinha do Brasil, um “doido de marinha”, apelido dado dentro desta força aos indivíduos que no sistema naval não se enquadravam ao que lhes era imposto.

Ter conseguido um exemplar foi um golpe de sorte, sendo que “O Canto dos Malditos” foi proibido de ser comercializado no país mediante ação de familiares dos médicos processados pelo autor, sendo também o primeiro livro a ter censura definida após a ditadura civil militar e somente recentemente teve seu retorno ao mercado editorial. Poucos sabem que o autor falecido em 28 de Maio de 2008 faleceu sem ter recuperado totalmente suas funções fisiológicas, algo que foi um dos agravos sofridos pela eletroconvulsoterapia. E pensar que ele não era louco, tampouco, o que faz os ditos loucos o serem? Nunca mais olhei pessoas diferentes da forma que olhava após ler este livro!!

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s