E hoje, como é?

  Ainda ontem estava a assistir um filme brasileiro ao qual conhecia por nome mas ainda não havia tido a oportunidade de assistir. O nome da obra cinematográfica era “O home que virou suco”, e mesmo sendo um trabalho de 1981 retrata segundo minhas impressões um Brasil que ainda se encontra em pleno curso.

No filme em questão, o ator José Dumont vive ao mesmo tempo o poeta Deraldo e o operário Severino. O dois personagens vividos por Dumont são distintos dentro da trama, apenas por um fator em comum…ambos são nordestinos que vieram para a cidade de São Paulo para buscar trabalho e uma vida melhor para a família. O filme gira em torno de uma gama de questões que podem ser analisadas por diversos prismas, e algo muito curioso é que os personagens não se conhecem, no entanto Deraldo é o tempo todo acusado de um assassinato que foi cometido por Severino, sendo os dois de muita semelhança física.

Não irei aqui me ater ao personagem de Severino, pesar de ao longo do texto ser possível entender onde o mesmo se enquadra na conturbada lógica regional brasileira, mas ao pensarmos em Deraldo e em seu estilo de vida, crenças e anseios podemos fazer uma analogia entre o marco histórico do filme e os dias atuais no que diz respeito à vida de artistas, e principalmente os artistas de rua no país. Deraldo, vivia de expor seus cordéis no centro de São Paulo, numa época em que ainda vivíamos uma Ditadura próxima de seu fim mas não tanto de seus resquícios mais latentes. O mesmo tinha seus meios de trabalho apreendidos por funcionários da prefeitura que em uma época de Cidadania Regulada ainda insistiam em que o aparente meliante mostrasse às autoridades seus documentos. Na Favela onde morava os vizinhos o tratavam como um vadio, pelo fato de não trabalhar de uma forma que consideravam dentro de um aspecto mais formal, ou seja, acordando cedo e indo para a labuta até o fim da tarde. Ao longo do filme o artista se vê obrigado a sair de seu barraco na Favela e ficar fugindo da polícia, tendo de realizar pequenos biscates para ter como garantir sua subsistência e ao mesmo tempo conhecendo outras realidades que nos fazem sempre refletir sobre a forma que o pobre e o retirante são tratados nas megalópoles….e hoje, como é?

Há um tempo atrás pedalava eu para a porta de entrada da PUC-Rio e algo me inquietou. Naquela época eu pedalava do Leme até a Gávea para poder não só me manter saudável, mas a utilizar a bicicleta como artifício para garantir a condução do Rio Card fornecido pela universidade para outros fins. Havia passado na Orla de Copacabana e estaquei ao observar um artista de rua que se opunha a entregar seu material aos Guardas Municipais ser espancado pelos profissionais a serviço da Prefeitura do Rio de Janeiro. Tive o ímpeto de intervir na situação mas me detive ao pensar que dificilmente poderia colaborar para ajudá-lo além do fato que tinha muita pressa para apresentar um trabalho na Faculdade, mas quando cheguei na porta da Universidade estar no entanto, novamente estaquei ao observar um grupo de artistas bolivianos que por ali trabalhava sentados no chão com Guardas Municipais ao lado e sem intervir de forma alguma. Achei aquilo muito estranho e logo perguntei a um dos Guardas o porque deles poderem trabalhando ali quando outros eram retirados. O homem me informou que os artistas que são oriundos de outros países parecem receber incentivos do Governo para estar realizando suas atividades, o que impede os Guardas Municipais de reprimi-los.

Nada contra os bolivianos, peruanos ou chineses e africanos que vem para o Brasil tentar ganhar a vida, mas naquele momento pensei comigo mesmo, que lógica é esta onde um cidadão do país não pode exercer sua atividade como artista na rua e outros provenientes de fora podem!!! Enfim, até hoje me pergunto porque existem esses tipos de atitudes dos que reprimem, porque existem estes tipo de incentivos ditos pelo tal Guarda e porque os artistas em geral, e quando digo artistas coloco toda a classe (Pintores, Palhaços, Cantores, Escritores, Desenhistas, etc) tem tanta dificuldade em emergir dentro de suas especificidades no Brasil? Num outro dia, eu que sou escritor fui realizar uma reunião com uma editora visando articular uma forma de colocar meu primeiro trabalho literário no mercado editorial, me surpreendi ao ouvir da responsável que a cada 300 livros que fossem comercializados eu teria direito a dez por cento do lucro de minha obra. Naquele momento decidi que seria um escritor independente em vias de fato.

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