Diário de Hospital – 25 de Janeiro de 2014 (Primeiro dia de Internação).

      Acredito que só temos o devido conhecimento da fragilidade que é estar vivo quando somos acometidos por algum tipo de patologia malígna, acidentes graves ou riscos de morte em geral. E meu caso tive esta consciência motivado pela segunda opção, tendo sido vitimado por um acidente de trânsito onde num simples cruzamento ao qual passava pelo menos duas vezes por semana sem quaisquer subterfúgios um carro que apenas me lembro ser vermelho me acertou mais ou menos às três e meia da tarde.

      Estávamos eu e minha companheira em nossa motocicleta, recém chegados do Reino Unido e regressando da casa de meus pais em Madureira e nem chegamos ao nosso destino, que ao ser modificado por tais circunstâncias passou a ser o Hospital Municipal Salgado Filho, no Meier. A maca é gelada e o frio dos metais não ajuda a suportar a dor na fratura da tíbia e fíbula. Os arranhões foram poucos  e provenientes da vantagem de se andar equipado e por me escandalizar ao ver sempre pilotos de moto com capacetes nos cotovelos ou mesmo sem resquício algum do equipamento tão fundamental para quem faz uso de tal veículo.

      Só conhecia hospitais públicos pelas lembranças de sempre correr nos corredores para não levar a picada das vacinas e das poucas vezes que sentia um mal súbito. Nunca fui acompanhante de familiares, e tampouco tive tempo disponível para ser e cheguei a realizar estágios em Serviço Social (minha profissão) em pelo menos dois hospitais e uma clínica particular, mas ainda assim confesso, minha primeira noite de internado foi difícil demais. A maior dificuldade foi me separar de minha companheira que desde a queda estava ao meu lado e tinha uma fratura similar. Após os primeiros procedimentos de estabilização de nossa fratura surgiram duas vagas (uma feminina e outra masculina) no setor de ortopedia, no quinto andar, contudo, havia chegado um senhor com o braço fraturado e achei por bem deixar ele seguir em meu lugar. Só veria minha companheira depois de quatro dias.

      Me enviaram para uma sala conhecida como sala amarela, onde passei uma das noites mais frias de minha vida com um simples lençol verde surrado me cobrindo até a altura do peitoral. Só bebi água por intermédio de uma senhora que estava ali como acompanhante de seu pai. Segundo as enfermeiras que estavam de plantão, o procedimento era não beber e nem ingerir nenhum tipo de alimento até a manhã do outro dia. A mesma senhora que me deu de beber me alimentou com um pequeno pedaço de pão doce de creme que estava um pouco azedo, mas ainda assim se travestiu numa iguaria requintada. Dormir foi impossível naquela noite mas posso afirmar que o sono pertence a um lado oposto ao da dor.  

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